Publicação: Europa, Brasil, Cabo Verde, África e Angola

Editora Chiado na Europa

Editora Alfaberto no Brasil

Versões: Impressa e E.book: 492 páginas

Gênero: Misticismo, Ficção Científica e Espiritualidade

Ano: 2016

 

Christofer Atkins é um programador de sistema de 39 anos que se sente condenado a viver no ostracismo da vida após ser humilhado perante os alunos recém-formados da Universidade da Geórgia nos Estados Unidos.

Envolvido por imensas dificuldades financeiras e emocionais, em pouco tempo é destruído pelo alcoolismo e a depressão.

Com ajuda de Simon, um homem enigmático e misterioso, decide sair em busca dos seus sonhos mais profundos. No entanto, carregado por um trauma psíquico que o acompanha desde a infância, transforma suas frustrações do passado numa obsessão sem controle: se tornar o maior programador de sistemas dos Estados Unidos e o homem mais rico da face da terra. Uma escolha dramática que muda radicalmente a vida da sua família e da humanidade inteira.

O Sistema de Doors é o sistema operacional que modificará o mundo, substituindo o atual sistema de janelas bidimensionais por um sistema de portas multidimensionais. Um sistema poderoso capaz de abrir a consciência dos seres humanos e lançá-los num mundo completamente novo.

Uma história intrigante que fará o leitor refletir sobre os verdadeiros valores das palavras amor e família e os avanços tecnológicos da atualidade. Um livro repleto de ensinamentos ocultos onde o autor entrelaça a impressionante história de vida de Christofer Atkins e a inevitável junção entre a ciência e a espiritualidade. 

 

“Eu saúdo a sua coragem e lhe desejo toda a sorte do mundo, pois sei que é forte e não sucumbirá perante aqueles que desejam sua queda”.  
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PRIMEIROS CAPÍTULOS

Carlos Torres
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Degustação: Primeiros Capítulos do livro O Sistema Doors
Carlos Torres
Carlos Torres
Mar 28, 2016 · 30 min read

Carlos Torres é escritor e mensageiro com mais de 180.000 exemplares vendidos no Brasil e Portugal.

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O livro que mudará o mundo, o seu mundo. — Páginas: 492 pág.

Sinopse:

Christofer Atkins é um programador de sistema de 39 anos que se sente condenado a viver no ostracismo da vida após ser humilhado perante os alunos recém-formados da Universidade da Geórgia nos Estados Unidos. Envolvido por imensas dificuldades financeiras e emocionais, em pouco tempo é destruído pelo alcoolismo e a depressão. Com ajuda de Simon, um homem enigmático e misterioso, decide sair em busca dos seus sonhos mais profundos. No entanto, carregado por um trauma psíquico que o acompanha desde a infância, transforma suas frustrações do passado numa obsessão sem controle: se tornar o maior programador de sistemas dos Estados Unidos e o homem mais rico da face da terra. Uma escolha dramática que muda radicalmente a vida da sua família e da humanidade inteira.
O Sistema de Doors é o sistema operacional que modificará o mundo, substituindo o atual sistema de janelas bidimensionais por um sistema de portas multidimensionais. Um sistema poderoso capaz de abrir a consciência dos seres humanos e lançá-los num mundo completamente novo.
Uma história intrigante que fará o leitor refletir sobre os verdadeiros valores das palavras amor e família e os avanços tecnológicos da atualidade. Um livro repleto de ensinamentos ocultos onde o autor entrelaça a impressionante história de vida de Christofer Atkins e a inevitável junção entre a ciência e a espiritualidade.

 

Assista o Trailer Oficial do livro:

“Se as portas da percepção fossem abertas, tudo apareceria ao homem como realmente é: infinito.” Willian Blake — Londres (1757–1827)

Dedico este livro a todos os pais que não estão mais neste mundo.

Carlos Torres — escritor
 

E-Book | O Sistema Doors

R$9,90Preço
  • Atlanta — 1983

    Assim que o sinal toca no pátio central da Harley Archer Middle School, o relógio marca exatamente meio dia, uma escola pública na periferia da cidade de Atlanta, capital do estado da Geórgia nos Estados Unidos.

    Christofer Atkins, um menino de apenas dez anos de idade sai da sala de aula acompanhado pela professora Deborah, que tenta convencê-lo que não há ninguém à espreita lhe esperando do lado de fora. No entanto o garotinho franzino e inocente não acredita em sua professora, já que conhece muito bem a fúria da gangue do Charlie-X.

    Além de enfurecidos, os membros da gangue de Charlie são altos, fortes e fazem parte do time de basquete da escola. O mais baixo do grupo mede um metro e oitenta e oito de altura. São seis garotos no total, prontos para surpreender o tímido e introvertido Christofer.

    Por que querem tanto pegar o garoto?

    Simplesmente porque o pequeno Christofer acaba de agredir o irmão mais novo do chefe da gangue Charlie Smith, mais conhecido nas redondezas como Charlie-X, pois se parece muito com o famoso Malcolm X, tanto fisicamente como ideologicamente.

    Charlie-X é um garoto negro de dezesseis anos de idade, revoltado com a vida e as condições sociais em que sua família vive. Um aluno repetente e temido por todos, extremamente violento e pouco disciplinado. Devido às seguidas repetências, ele acabou se tornando o aluno mais velho da escola.

    Ele não é de todo bruto e insensível como demonstra, mas possui uma convicção que não o deixa atrás nas discussões que acontecem às escondidas nos vestiários da escola sobre assuntos como a discriminação racial, a revolução contra os brancos ricos e a importância dos negros nos Estados Unidos no início da década de oitenta.

    Talvez Charlie-X almeje realmente mudar o mundo. Até aí tudo bem, pois não é estranho ver um garoto de dezesseis anos andando pela periferia de Atlanta querendo mudar a comunidade em que vive.

    É do tipo provocador que não aceita ser desafiado, ainda mais se alguém da sua família estiver envolvida, principalmente seu irmão mais novo Burt Smith, que coincidentemente estuda na mesma classe do pequeno Christofer Atkins, e ambos têm apenas dez anos de idade.

    São crianças e adolescentes vivendo num ambiente de enorme pressão social. É assim que acontece na Harley Archer School. Tudo muito intenso, e às vezes dramático.

    A primeira vista parecem crianças mal educadas e enraivecidas pela influência conturbada do início dos anos oitenta. Mas na periferia de Atlanta as coisas realmente borbulham com mais intensidade do que em qualquer parte dos Estados Unidos.

    É claro que não existe um motivo real para tantas contestações, mas as inquietações existem e fazem parte da vida dessas pequenas crianças quase adultas.

    Além das constantes inquietações, é perceptível entre os jovens da periferia, uma crescente vontade em se tornarem pessoas aceitas e reconhecidas pela sociedade. Na verdade todos almejam se transformar em pessoas ricas quando chegarem à idade adulta.

    Logicamente, nenhum aluno afirma que está à mercê da força arrebatadora que vem das classes sociais endinheiradas, as classes dominantes que divulgam e promovem constantemente a cultura do sucesso financeiro e da riqueza sem limites, a base da ideologia yuppie, a dura filosofia dos brancos ricos que começa a brotar com força em New York e nas principais capitais do país.

    Uma ideologia baseada na conquista e no sucesso pessoal, provocando surdamente as pessoas ao redor do país e do mundo. Uma força extraordinária que chega através da televisão, dos filmes, das músicas, dos produtos e das propagandas, dizendo que os seres humanos são capazes de vencer tudo se tiverem acesso ao poder e o dinheiro. Ou seja, é a lei da vitória a qualquer custo sendo imposta a população de forma subliminar.

    A palavra de ordem é simples e direta: dedique sua vida ao trabalho árduo e siga os novos padrões estipulados. Se por ventura trabalhar dezesseis horas por dia e passar por cima de tudo para conquistar o que deseja, em pouco tempo comprará carros luxuosos, usufruirá do conforto e da luxúria, comprará roupas bacanas, viajará ao exterior, frequentará restaurantes caros e famosos e experimentará bebidas e cigarros caríssimos. Caso seja homem terá muito mais do que apenas dinheiro, conquistará mulheres bonitas e sensuais e terá acesso à tão sonhada felicidade através da fama e do poder. Dessa maneira todos os problemas e vazios emocionais serão resolvidos através do dinheiro.

    No fundo, mesmo fazendo uma enorme apologia contra a burguesia dominante, todos desejam ficar milionários e construir uma vida de sonhos um dia, afinal é a ditadura do capitalismo desenfreado que está em jogo no início da glamorosa e colorida década de oitenta.

    O que os pobres estudantes não sabem é que todos estão mergulhados numa atmosfera de normalidade e seguindo as normas impostas pela sociedade ao invés de seguirem suas próprias naturezas.

    Essa é a regra, a riqueza material é o grande objetivo, a grande meta dessa geração.

    A ideologia yuppie dos anos oitenta é a nova filosofia que chega para moldar a vida dos homens e das mulheres de meia idade, as mesmas pessoas que viveram intensamente a época dourada dos anos sessenta e a liberdade do Woodstock. No entanto, a força da modernidade é tão avassaladora que as pessoas deixaram a ideologia de paz e amor para trás e optaram por assumir a ambição material como base das suas vidas.

    Já, a geração de Charlie-X e Christofer Atkins, que não viveram a fase da liberdade e do amor livre dos anos sessenta, sentem-se perdidos diante da ânsia desenfreada que seus pais, professores e governantes veem sentindo pelo dinheiro. Estão vendo todos os seus ídolos entrando de cabeça num mundo regido pela vitória financeira a qualquer custo.

    O que eles não sabem é que a cultura yuppie (Yuppie: uma derivação da sigla YUP, expressão inglesa que significa Young Urban Professional — Jovem Profissional Urbano), é algo que nunca aconteceu na história dos Estados Unidos. Um movimento poderoso que transformou uma geração inteira.

    Uma força indescritível borbulha entre os jovens. Não somente entre os jovens ricos e filhos de milionários, mas também entre os jovens pobres da periferia como Charlie, Burt, Christofer e todos os meninos de classe média que começam a entrar no pujante mercado de trabalho que se formou após a guerra do Vietnã e a conturbada renúncia do presidente Richard Nixon.

    Infelizmente, e por um motivo aparentemente ridículo, Christofer Atkins arruma uma tremenda encrenca com seu colega de classe Burt Smith, o irmão mais novo de Charlie-X, durante a aula de história da senhorita Deborah Jones. Um evento que pega o tímido Christofer desprevenido e acaba mudando sua vida completamente a partir desse fatídico dia.

    Burt Smith é um garoto negro, pobre, inquieto e pouco disciplinado dentro da sala de aula, exatamente como seu irmão mais velho, o temido Charlie-X.

    Durante a aula de história, enquanto a professora Deborah Jones explana a matéria sobre racismo, escravidão americana e as transformações da vida urbana após a proclamação da emancipação feita pelo Presidente Lincoln, o pequeno Burt se levanta da cadeira e começa a esbravejar dizendo que sua vida é uma porcaria por causa dos brancos malditos que escravizaram seus antepassados e dominaram o seu país.

    O menino de apenas dez anos de idade, com cabelos grandes imitando o estilo Jackson Five, traz um semblante enraivecido e um discurso quase adulto sobre a discriminação racial.

    Na verdade, o pequeno Burt repete apenas as palavras que seu irmão Charlie costuma proferir, que por sua vez repete tudo o que sua mãe Hellen Smith diz em casa enquanto lava a louça e prepara o jantar. Ou seja, a origem dos discursos envolventes e inquietantes de Charlie-X, os mesmos que influenciam profundamente sua gangue e seu irmão Burt, vem de dentro da sua própria casa, através dos ensinamentos da sua mãe Hellen Smith.

    Hellen é uma mulher amargurada de quarenta e sete anos de idade, autoritária e extremamente solitária. Seu marido a abandonou assim que descobriu sobre a gravidez do segundo filho Burt Smith, em 1973.

    Apesar de ter sido muito maltratada pela vida, Hellen se orgulha dos filhos, principalmente quando os vê defendendo suas origens negras de maneira incisiva e marcante. Ela só não se orgulha das notas baixas que chegam bimestralmente em seus boletins e quando recebe alguma carta de suspensão do diretor da escola, o senhor Willian Black.

    Durante uma breve discussão com a professora Deborah Jones, o pequeno Burt repentinamente vira seu corpo franzino e aponta o dedo para Christofer sem qualquer motivo aparente.

    Por que Burt Smith age dessa forma estranha?

    Christofer é o único menino branco da classe. As outras quarenta e duas crianças são negras ou descendentes de negros.

    Assustada, a professora Deborah, que por sinal também é negra, pergunta para Burt por que ele tem tanta raiva dos brancos. Burt olha para a professora e não hesita em responder que seus antepassados foram escravizados durante décadas e maltratados a chicotadas como se fossem animais, e isso tudo aconteceu para sustentar os desejos insaciáveis dos influentes ricaços de pele branca e olhos azuis que comandavam o país durante o século dezenove.

    Não compreendendo a ira do garoto, a professora Deborah faz novamente a pergunta, mas desta vez com mais ênfase:

    -Burt, quem lhe disse essas coisas? Você é muito novo para ter tanta raiva dos brancos! É muito estranho ver um menino da sua idade falando com tanta propriedade sobre este assunto.

    Burt se levanta da cadeira com os olhos vermelhos de raiva e responde:

    -Foi minha mãe que me ensinou.

    Burt olha para Christofer com semblante raivoso e Deborah se aproxima do menino:

    -Burt, eu quero lhe fazer uma pergunta e gostaria que me respondesse com sinceridade.

    -Sim senhorita Jones.

    De repente todos os alunos fixam os olhos na professora acreditando que Burt será repreendido por ter desrespeitado o pequeno Christofer Atkins.

    Visivelmente nervoso Burt começa a chorar com medo da suposta repreensão da professora. Senta na cadeira, coloca a cabeça entre os braços para esconder o rosto choroso e resmunga baixinho:

    -Faça o que quiser comigo professora! Eu respondo tudo o que a senhorita quiser. Desculpe, eu não quis ser mal educado.

    Deborah se aproxima e coloca a mão sobre sua cabeça.

    -Fique calmo Burt, não vou repreendê-lo. Só quero saber por que você apontou o dedo para Christofer com tanta raiva. Por que seu olhar se transformou ao se referir aos negros escravos, os seus antepassados?

    -Não sei professora. — Burt tenta responder, mas está confuso. Certamente existe algo mais profundo afetando as suas emoções. Fica claro que a sua raiva é inconsciente e involuntária.

    Deborah enfatiza e pergunta outra vez:

    -Você não gosta do Christofer? Por isso apontou o dedo para ele?

    -Não sei professora. — Burt coloca a cabeça novamente entre os braços tentando esconder as lágrimas que começam a escorrer pela pele lisa do seu rosto.

    Christofer, tímido e com os cabelos lisos e louros caindo sobre a testa, fica parado sem entender o que está acontecendo.

    Nesse momento Samantha, uma menina que costuma sentar no fundo da sala, a mais velha da classe, com doze anos de idade, se levanta e diz em tom raivoso:

    -Sabe o que está acontecendo aqui professora? Eu posso explicar se a senhorita quiser.

    -Diga Samantha.

    -Ninguém da classe gosta desse tal de Christofer. Na verdade, ninguém gosta dele na escola inteira. Para falar a verdade não sei o que esse branquelo está fazendo numa escola de negros. Esse loirinho de olhos verdes e pele branquinha deveria estudar com os meninos da laia dele. Só ele não percebe isso. Desculpe, mas esse branquelo não é bem vindo aqui professora!

    Christofer olha para Samantha assustado sem entender o que está acontecendo e começa a suar frio ao ouvir o tom de voz arredio de Samantha.

    Ele nunca sentiu tamanha rejeição. Parece que alguma coisa está prestes a eclodir na classe. As crianças começam a cochichar entre si.

    Christofer é um menino que nunca incomodou ninguém e passa o tempo todo isolado. Não por se sentir uma criança diferente, mas por se sentir desprotegido depois que seu pai morreu num terrível acidente de carro na rodovia Bolton Road enquanto voltava do trabalho.

    Burt Smith toma coragem ao ver que Samantha está ao seu lado, levanta a cabeça, enxuga os olhos e diz:

    -Professora Deborah. Quer saber por que apontei o dedo para Christofer?

    -Claro que sim.

    -Minha mãe me ensinou que nunca devemos acreditar nos brancos, é por isso. Eu odeio os brancos.

    -Oh meu Deus! Por que a sua mãe disse isso Burt?

    -Porque os brancos são traiçoeiros e vingativos. E esse menino aí é branco demais para o meu gosto. E tem mais: ele tem olhos claros e esverdeados, tão claros que parecem olhos de mulherzinha.

    De repente todas as crianças da sala caem em gargalhada e começam a debochar de Christofer repetindo em voz alta o que o pequeno Burt acaba de dizer: Mulherzinha! Mulherzinha!

    Christofer fica sem jeito e seu rosto começa a ficar vermelho de vergonha.

    Deborah Jones, com apenas trinta e dois anos de idade, já está acostumada a conviver com o racismo surdo e angustiante que envolve os adolescentes da escola, mas nunca viu uma reação desse tipo no terceiro ano, com crianças de apenas dez anos de idade.

    Todos riem deixando Christofer cada vez mais nervoso. Mas ele se controla e continua sentado na terceira carteira do lado esquerdo da sala.

    Contudo, a sua paciência não dura muito. Segundos depois Christofer não suporta a insistência dos deboches e começa a sentir a força do preconceito. Seu rosto esquenta e o nervosismo já não é apenas de vergonha, mas sim de uma raiva que começa a fluir sem controle pelo seu sistema nervoso.

    Deborah percebe a indignação de Christofer e tenta agir antes que algo ruim aconteça. Mas infelizmente ela não consegue acalmar os ânimos a tempo. Christofer subitamente joga a carteira para o alto e avança sobre Burt, descarregando toda a sua ira.

    Ele não está com raiva do que Burt disse sobre os brancos e os negros escravos; muito menos sobre as diferenças raciais. Como Christofer sempre conviveu com várias crianças negras na periferia de Atlanta, nunca sentiu qualquer repúdio por parte delas. Para ele, negros e brancos eram todos iguais, no entanto, pela primeira vez em sua vida começa a compreender que existe algo mais forte entre as diferentes raças, algo que ninguém nunca havia lhe contado até então.

    A ira repentina vem à tona por causa dos deboches que abalam muito o emocional de Christofer — um menino problemático, confuso e fadado a viver dentro de uma família envolta pelo desamparo e o desamor.

    Christofer é filho único. Depois que seu pai morreu vítima de uma fatalidade, ele ficou praticamente sozinho. Após o funeral de seu pai, o dia em que viu seu avô Arthur pela última vez, Christofer passou a viver uma vida extremamente solitária e sofrida ao lado da sua mãe Natalie e do seu padrasto Robert Garcia, um vagabundo viciado em jogos de azar que sua mãe conheceu uma semana após a morte do seu marido, numa boate que costumava frequentar quando era solteira no centro antigo de Atlanta, local onde os motociclistas costumavam se encontrar para jogar pôquer, beber uísque, encontrar prostitutas e matar o tempo jogando conversa fora.

    Peter Atkins, pai de Christofer, morreu há seis meses. Após o trágico acidente o desamparado dentro da sua casa se fez presente, pois sua mãe Natalie sempre foi uma pessoa ausente devido ao vício da heroína e do alcoolismo.

    Robert Garcia, seu novo namorado, é um vagabundo profissional, viciado em pôquer e conhaque de má qualidade. Nas horas vagas ele costuma ocupar seu tempo livre praticando pequenos golpes de estelionato e roubo a mão armada. O problema é que além de se uma má companhia para Natalie, ele odeia Christofer e sabe muito bem como enganá-la. Na verdade não é difícil enganar Natalie, pois na maioria do tempo ela está drogada ou se contorcendo de dor no sofá por causa da abstinência voraz que a falta de heroína causa no organismo.

    Estranhamente, o pouco dinheiro que Natalie recebe de pensão sempre desaparece misteriosamente do fundo da gaveta do seu quarto. Ela diz que não sabe o que acontece com o dinheiro, mas é claro que Robert a rouba todos os dias para gastar em jogatinas e bebidas.

    Robert não odeia exatamente Christofer como pessoa, pelo menos é o que ele diz aos seus amigos motociclistas. O que ele odeia é a sua presença, pois para ele, Christofer é um estorvo dentro de casa. Um menino tímido e quieto, porém extremamente observador.

    Sendo assim, com Christofer por perto Robert não consegue enganar Natalie com tanta facilidade como gostaria. Além disso, se sente impedido de convidar seus amigos vagabundos para jogar e beber a noite inteira na casa de Natalie, e depois transar livremente com ela pelos cômodos da casa assim que todos vão embora.

    Natalie tenta se mostrar uma mulher forte e resistente, mas é uma pobre coitada que perdeu completamente o discernimento da vida depois que seu marido faleceu.

    Depois que Peter partiu para outro mundo Natalie passou a beber descontroladamente desde as primeiras horas da manhã até altas horas da madrugada.

    Em sua inocência, o pequeno Christofer acredita que Natalie sofre de alguma doença grave e não se abala mais com as coisas que ela costuma fazer.

    Seu pai Peter sempre foi um homem amoroso e sempre tratou Natalie como uma verdadeira mulher, mesmo sabendo sobre seu vício com as drogas e as bebidas.

    No entanto, após a sua morte o desamor tomou conta daquele pequeno lar e Christofer passou a adotar a escola como sendo a sua segunda casa, o lugar mais seguro e protegido que o pobre menino conseguiu encontrar.

    A grande pergunta é:

    O que faz o pequeno Christofer se sentir tão inseguro dentro da sua própria casa? Será que Robert bate nele? Será que Robert grita com ele?

    Certamente Robert grita com ele, e bastante. No entanto não são apenas gritos. Robert Garcia é uma pessoa má e não mede esforços para manter Christofer longe da sua mãe e de tudo que tenha relação com seu falecido pai, Peter.

    Uma situação extremamente angustiante para o menino que parece viver um verdadeiro inferno ao lado de seu padrasto Robert Garcia, um homem estrategista, frio e manipulador, um vagabundo ladrão de moedas e pequenos tostões, um ex-presidiário de quarenta e dois anos de idade, alto, magro e com a barba sempre por fazer.

    Robert costuma se vestir sempre da mesma maneira, calça jeans desbotada, bota de couro com ponta de aço e camiseta regata apertada para mostrar seus músculos magros e suas horríveis tatuagens feitas na prisão entre os anos de 1972 e 1973, com agulha de bordado e tinta nanquim, ao ser condenado por roubo e espancamento de mulheres.

    Com o passar dos meses, a professora Deborah Jones se tornou uma espécie de mãe substituta para Christofer, pelo menos era assim que o garoto a considerava. Mas logicamente a senhorita Deborah Jones não sabia disso.

    Definitivamente, sem a presença do falecido pai, Christofer acaba se transformando num menino confuso, inseguro e envolvido por inúmeros traumas psíquicos e emocionais.

    Deborah e o diretor Willian Black não imaginam o que se passa com o garoto assim que ele ultrapassa os portões da escola e segue sozinho para sua casa. Sempre sozinho.

    Todos os dias, assim que o sinal toca e os alunos saem correndo pelo pátio para se encontrar com seus pais, Christofer fica encostado na parede aguardando em silêncio todos irem embora. Assim que o pátio da escola esvazia ele atravessa o portão vagarosamente com o olhar cabisbaixo, atravessa a rua, coloca sua velha mochila descosturada nas costas e segue o caminho até sua casa que fica há mais de quatro quilômetros dali.

    O que a professora Deborah estranha é que ninguém nunca aparece para buscá-lo, simplesmente ninguém aparece. Nem mesmo nas reuniões bimestrais alguém surge para ouvir o que os professores têm a dizer sobre as notas do seu boletim.

    Parece que Christofer foi abandonado pela família.

    Está ficando claro para Deborah que o garoto vem sofrendo muito com a falta do pai, é perceptível seu comportamento confuso e às vezes sistemático.

    Sempre que Christofer sai da escola, ele faz o mesmo trajeto e caminha pela mesma calçada. Não olha para os lados e não se despede de ninguém. Além das estranhas manias que ele possui algo intriga muito a professora Deborah, pois seu olhar emana uma tristeza profunda e inquietante.

    Na terça-feira, três dias antes de acontecer à repentina briga entre Burt e Christofer na sala de aula, a professora pressente que algo ruim vem acontecendo com Christofer dentro de casa.

    Até então ela não sabe nada sobre Christofer, mas tem certeza que alguma coisa está acontecendo.

    Na tarde de terça feira, dia 10 de março de 1983, Deborah decide seguir o garoto até a sua casa para descobrir qual o motivo que o faz andar sempre cabisbaixo pela rua. Ela sabe que não pode ser apenas tristeza, Deborah tem certeza que existem outros motivos para Christofer agir dessa maneira.

    Apesar da curiosidade, o mais importante é descobrir onde fica exatamente a sua casa.

    Após segui-lo por quatro quilômetros sem que ele perceba, algumas coisas começam a se revelar. Assim que Christofer chega em frente a sua casa, Deborah para cerca de cinquenta metros de distância e começa a analisar a situação, e de repente sente uma estranha energia nos arredores da casa.

    É uma casa simples, térrea, feita de madeira e alvenaria, mas nitidamente maltratada e abandonada. O jardim está sujo e repleto de vira-latas famintos rondando o quintal à procura de restos de comida.

    Fica claro para ela que esse lar foi completamente abandonado depois que o pai de Christofer morreu.

    Há latas de óleo de motocicletas jogadas por todo o gramado e um volume imenso de entulho acumulado em sacos plásticos. Uma visão realmente assustadora.

    Deborah olha ao redor e percebe que a maioria das casas da vizinhança é simples, contudo, são todas limpas e trazem uma sensação de harmonia, exatamente como deve ser um lar de verdade.

    Já, a casa de Christofer está visivelmente abandonada, apagada, sem vida e emanando uma intensa energia de sofrimento e discórdia.

    Desde criança a professora Deborah tem dons sensitivos, mas nunca teve coragem de compreender as estranhas sensações que acontecem com ela sempre que se aproxima de lugares que emanam energias estranhas como esse, a humilde residência da família Atkins.

    Christofer se aproxima da casa, empurra a porta de madeira com o pé e segue em direção à cozinha para pegar um pedaço de pão velho que está sobre a mesa.

    Neste momento Deborah começa a sentir um intenso mal estar, como se fosse um aviso dizendo que algo muito ruim está acontecendo dentro desse suposto lar.

    Christofer entra em casa e vai direto para a cozinha procurar alguma coisa para comer. Ele está nitidamente faminto.

    Tudo acontece muito rápido e Deborah só consegue ver a breve cena de Christofer pegando um pedaço de pão velho, e depois fechando a porta com o pé.

    Neste momento ela compreende o motivo de Christofer estar emagrecendo tanto nas últimas semanas. Está debilitado, desnutrido e entristecido.

    Ninguém o recebe ao chegar exausto e faminto da escola. É claro que ninguém o recebe! Sua mãe Natalie e o seu padrasto Robert acordam perto das duas horas da tarde por terem o costume de passar a madrugada inteira bebendo e se drogando pelos bares da periferia.

    Por este motivo o garoto só consegue comer algo substancioso por volta das sete ou oito horas da noite quando sua mãe decide se levantar e preparar algo para o seu companheiro Robert comer.

    Até o momento Deborah não sabe exatamente o que se passa dentro da casa. Assustada com o que vê, ela só pensa em sair dali antes que algum vizinho a veja e pense algo errado sobre a sua pessoa.

    Ela fica parada durante alguns minutos no mesmo lugar, e logo decide voltar à escola.

    É inexplicável, mas Natalie não parece se importar com seu filho. Na verdade sua mãe é uma pobre coitada obcecada pelas drogas e bebidas que Robert traz todas as noites quando ganha algum dinheiro jogando pôquer.

    Infelizmente essa é a pura verdade, Natalie está física e mentalmente doente, mas não quer acreditar nisso.

    O problema é que seu único filho Christofer está jogado a má sorte por consequência dos seus vícios. Além de viciada, Natalie é depressiva e não se importa com sua própria vida. Sendo assim, o que esperar que ela faça com relação ao seu próprio filho?

    Christofer está realmente à mercê da má sorte. Pior que isso; está à mercê das manipulações maléficas e discordantes do vagabundo Robert Garcia.

    Deborah não quer mais ficar olhando essa triste cena e decide voltar rapidamente para a escola.

    A imagem do abandono do menino não lhe faz bem. Por isso, durante o caminho de volta, Deborah acaba passando mal e sentindo muito enjoo e tontura.

    Ela quer muito saber o que está acontecendo com seu aluno, mas naquele momento não teve condições para se aproximar da casa e abordar sua mãe ou seu padrasto. Mas está decidida a lutar com todas as forças para descobrir o que se passa dentro daquele lar.

    Na verdade, a vida de Christofer é um completo segredo. Não há ninguém para quem Deborah possa perguntar sobre a real situação do garoto.

    Para quem pedir ajuda se Christofer não tem irmãos, primos nem parentes?

    Semanas atrás Deborah tentou procurar, mas não encontrou nada em sua ficha cadastral da escola. Nenhum telefone de contato e nenhuma pessoal responsável além do seu falecido pai.

    Será que é chegada a hora de acionar a assistência social?

    Deborah tem suas dúvidas, afinal ela não sabe nada sobre a história de vida desta sofrida família. Não sabe literalmente nada, nem mesmo sobre o vício de Natalie e o novo namorado que ela acabou de colocar dentro da sua própria casa. A única coisa que Deborah sabe é que o pai de Christofer morreu numa acidente de carro na rodovia, apenas isso, nada mais.

    No entanto, a atitude de seguir o garoto até sua casa não foi de toda em vão. Pelo menos agora, Deborah sabe onde Christofer mora e pode acionar o serviço social de Atlanta se assim achar necessário.

    Mas algo intrigante acontece neste dia. Além de ver a real situação do seu aluno, no caminho de volta a escola, Deborah descobre algo que talvez nem mesmo Christofer tenha consciência. Ela percebe duas coisas: a primeira é que ele possui a estranha mania de nunca pisar nas juntas das calçadas e nas falhas do cimento, esse é o motivo pelo qual Christofer sempre caminha olhando para baixo, justamente para não pisar nas juntas e nas trincas que existem pelo chão.

    A segunda coisa é que ele nunca olha nas janelas da sala de aula. Sempre escolhe sentar nas carteiras perto da porta de saída, bem longe das janelas.

    Dias atrás Deborah pediu para os alunos mudarem de lugar e sugeriu para Christofer se sentar ao lado da janela de vidro, mas em pouco tempo ele começou a suar de nervoso e implorou para deixá-lo o mais perto possível da porta de saída.

    Afinal, qual o motivo de Christofer ter tanto medo de janelas?

    Até este momento Deborah ainda não sabe, mas saberá em breve.

    Christofer é um menino quieto e raramente conversa com outras crianças. Prefere ficar isolado e concentrado nos estudos ao invés de brincar nos intervalos das aulas. Também não demonstra apego às brincadeiras em grupo e odeia basquetebol.

    Quando é chamado pela professora para responder alguma questão durante a aula, sente-se encabulado e com medo de ser repreendido e ridicularizado pelos demais. Apesar de todos os seus problemas emocionais aparentes, Deborah tenta a todo custo ajudá-lo a superar suas limitações. Mas é difícil conseguir qualquer avanço nessa direção, pois seus medos são desconhecidos e pouco compreensíveis. Talvez um psicólogo possa ajudar, ou talvez um médico especialista, no entanto, a sua família nunca mostrou preocupação com as dificuldades e limitações do menino.

    Christofer chega sempre sozinho na escola e volta sempre sozinho para casa, mesmo nos dias frios e chuvosos ele nunca vem acompanhado por alguém.

    No dia seguinte da visita ao bairro pobre de Christofer, quarta feira pela manhã, Deborah chega à escola para trabalhar e decide ir direto para a secretaria para procurar a ficha de matrícula de Christofer, nos arquivos.

    Quem sabe ela encontra alguma informação sobre o garoto. Talvez o registro de um parente próximo para quem possa telefonar e pedir mais informações. Talvez uma tia, um tio ou até mesmo avós.

    É o que acontece às sete horas da manhã deste mesmo dia. Deborah puxa a gaveta do armário de ferro e vê o nome de Christofer escrito à mão numa das pastas de papel pardo.

    Ao folhear os papéis, Deborah percebe que a pessoa que assinou sua matrícula escolar foi seu avô paterno, o senhor Arthur Atkins, pai de Peter.

    Isso é muito bom, pois aponta um novo caminho a seguir.
    Capítulo 2

    A casa de Arthur

    Arthur é um senhor de setenta anos de idade, aposentado e pobre como a maioria da população da periferia da Atlanta. Sobretudo, é um homem que costuma ser extremamente simpático com as pessoas.

    Foi uma pessoa muito rica no passado e a esta altura deveria estar curtindo uma vida de milionário durante a sua velhice, mas infelizmente perdeu tudo o que tinha na década de setenta por buscar desesperadamente uma cura para a grave doença da sua esposa.

    Além de não encontrar a cura para a doença da sua esposa, gastou tudo o que tinha com tratamentos, viagens ao redor do país, cirurgias e caros medicamentos para protelar a morte da sua querida Sarah.

    Contudo, após tantos esforços e investimentos, Sarah não aguentou as insuportáveis dores no abdômen e acabou falecendo três semanas depois que seu filho Peter foi atropelado na rodovia.

    Foi muito duro para Arthur, pois acabou sofrendo duplamente. Primeiro com a morte repentina do filho e em seguida com a morte anunciada da esposa. Ele chegou a acreditar que Sarah decidiu partir deste mundo por querer ficar ao lado do seu filho, e não por causa do agravamento do câncer que tinha no intestino.

    Sarah foi uma mãe exemplar e amava muito seu filho Peter. Sendo assim, não era de duvidar que ela entregasse sua própria vida para ampará-lo no mundo pós-morte.

    Arthur costumava dizer que os Deuses decidiram levar a sua esposa e o seu filho embora por algum motivo desconhecido, mas tinha convicção que todas as explicações seriam reveladas um dia, e de maneira clara e lúcida.

    O velho Arthur sempre foi conhecido como Mister Sparrow, ou senhor pardal, pois quando era jovem foi um dos maiores professores de física na Universidade da Geórgia, onde trabalhou por mais de trinta anos desenvolvendo projetos inovadores no segmento de computação e comunicação.

    As primeiras ideias e conceitos sobre comunicação digital surgiram devido aos seus extraordinários conhecimentos, os quais iam muito além do normal. Na maioria das vezes suas teorias eram incompreensíveis pelas cadeiras acadêmicas que o acompanhavam, mas sua persistência era incrível.

    Tinha uma ânsia inquietante em descobrir o que ainda estava encoberto pelas hierarquias espirituais da Criação.

    Sem dúvida o velho Arthur foi um cientista de alto calibre quando jovem, porém, era apaixonado pelo misticismo e a espiritualidade e tinha certeza que algo além do normal lhe envolvia durante seus processos criativos, algo que o inspirava enquanto desenvolvia seus projetos de inovação.

    Sua intrigante crença numa força superior, somado a um desejo incontrolável de descobrir os segredos das dimensões paralelas que nos rodeiam, certamente incomodava seus colegas de profissão durante as décadas de quarenta e cinquenta, a época em que Arthur era um homem extremamente ativo e propunha teorias incríveis nos laboratório de pesquisas da Universidade. Teorias um tanto quanto utópicas para muitos, mas todas com objetivo de comprovar a imortalidade da alma e a possibilidade de criar uma forma de comunicação interdimensional através de plataformas tecnológicas racionais e absolutas.

    Dentro dos portões da Universidade Arthur era um exímio cientista, mas fora do campus era um declarado amante das filosofias indígenas e xamânicas, das tribos Cherokees que viviam no norte do estado, as mesmas tribos que ele acreditava serem os verdadeiros donos do continente norte americano.

    Deborah Jones na sala de arquivos.

    Ao analisar com calma a ficha de inscrição de Christofer, de repente a senhorita Deborah sente uma enorme necessidade de procurar o seu avô Arthur e finalmente descobrir o que está acontecendo com seu aluno.

    O prefixo do telefone descrito na ficha de matrícula mostra que Arthur mora do outro lado da cidade de Atlanta.

    Deborah não perde tempo e corre até a secretaria para telefonar.

    Após duas tentativas sem sucesso ela decide não insistir, vira de costas para o telefone e dá dois passos adiante. Mas inexplicavelmente uma força estranha a faz olhar para o telefone outra vez insistindo para ela tentar outra vez. Segura o telefone com firmeza e desta vez disca com a certeza que alguém atenderá do outro lado da linha.

    Logo no primeiro toque, uma mulher com uma voz rouca atende:

    -Alô!

    -Bom dia senhora, gostaria de falar com o senhor Arthur. Ele se encontra?

    -O senhor Arthur infelizmente não se encontra. Está viajando.

    -Que pena! Gostaria muito falar com ele.

    -Está viajando há dois meses. Imaginei que seria ele ao telefone, mas quando atendi, percebi que não era.

    -A senhora saberia me dizer quando o senhor Arthur retorna?

    -Infelizmente não.

    -Tem tido notícias dele?

    -Não tenho notícias do senhor Arthur. A última vez que ele ligou já faz um mês. Ele disse para eu mandar John arrumar o vitrô da oficina que se quebrou por causa do vendável do verão passado.

    -Quem é John?

    -O jardineiro que vem regar o jardim de vez em quando.

    -Desculpe perguntar, mas onde o senhor Arthur está? Poderia dizer?

    -O senhor Arthur não gosta que eu diga onde ele está.

    -Eu entendo.

    -Olha moça, pra falar a verdade eu também estou preocupada com ele. No entanto, antes de dizer qualquer coisa sobre o senhor Arthur preciso saber quem é a senhorita. A senhorita me entende, não é?

    -Entendo perfeitamente. Meu nome é Deborah Jones e sou professora do neto dele, Christofer. Eu preciso muito falar sobre seu neto.

    -Sobre o neto dele?

    -Sim.

    -Ele me contou que tinha um neto, mas infelizmente não sei nada sobre ele.

    -O que a senhora é do senhor Arthur. Irmã? Parente?

    -Sou vizinha. Cuido do cachorro e limpo a casa dele uma vez por semana. Não sei nada sobre a vida particular do senhor Arthur, só sei que a esposa dele morreu meses atrás e ficou completamente transtornado depois disso.

    -A senhora acha que ele viajou por causa da morte da esposa?

    -Acho que sim. Pobre homem, ele ficou muito estranho depois que a esposa e o filho morreram.

    -Nossa! Não deve ter sido fácil para ele! — A propósito: qual é o seu nome senhora?

    -Meu nome é Sofia. Mas pode me chamar de Sofy.

    -Obrigada pela atenção Sofy.

    -Eu que agradeço por ter telefonado. A senhorita parece ser uma moça muito simpática.

    -Obrigada. Mas antes de desligar quero lhe pedir dois favores.

    -Pode dizer querida. Eu gostei muito de você.

    -Gostaria que a senhora anotasse o número do meu telefone.

    -Anoto, é claro!

    -Assim que o senhor Arthur chegar de viagem peça para ele entrar em contato comigo. Vou lhe passar o telefone da minha casa. Anote por gentileza.

    -Tudo bem. Você deve ser uma moça muito bonita, não é?

    -Porque a senhora está dizendo isso?

    -Por causa da sua voz doce e suave. Só pela voz posso imaginar a sua feição.

    -Você é muito gentil senhora Sofy. — O meu número é 0092.10020

    -Já anotei. — O que mais a moça simpática deseja?

    Deborah sorri do outro lado da linha tentando imaginar como seria a fisionomia daquela senhora de voz meiga. Pelo tom da sua voz deve ter mais de setenta anos, talvez oitenta.

    -Se for possível eu gostaria que a senhora me passasse o endereço da casa do senhor Arthur, pois irei até ai conversar assim que ele retornar de viagem. Se isso não for um problema, é claro.

    -Não é problema, anote agora mesmo senhorita.

    -Pode dizer.

    -O endereço é Carter Avenue Southeast, 390, próximo à escola pública de E.Coan.

    -Muito obrigada pela atenção Sofy. Preciso desligar o telefone e voltar ao trabalho.

    -Já vai desligar moça simpática?

    -Preciso trabalhar Sofy.

    -Você é tão simpática! Ligue mais vezes para conversar.

    Devido à sua sensibilidade, Deborah sente que Sofy é uma mulher muito solitária, certamente é viúva.

    -Ligarei mais vezes, não se preocupe Sofy.

    -Que bom! Ficarei esperando a sua ligação. Não é sempre que converso com alguém. Depois que o senhor Arthur foi embora não tenho ninguém pra conversar por aqui. É muito triste viver sozinha, sabia moça?

    Os olhos de Deborah começam a lacrimejar do outro lado da linha.

    -Eu imagino como deve ser difícil viver sozinha Sofy. Certamente ligarei outras vezes, eu prometo.

    -Tudo bem filha. Eu limpo a casa do senhor Arthur todos os dias por volta das nove horas da manhã. É só telefonar nesse horário e estarei lhe esperando.

    -Tudo bem. Até logo Sofy.

    -Até logo moça simpática.

    Com os olhos mareados, Deborah coloca o fone no gancho com a nítida impressão que já conhecia a voz daquela senhora. No entanto, ao desligar o telefone ela pressente que algo ruim está acontecendo com Arthur aonde quer que ele esteja.

    Onde Arthur está afinal? Para onde teria ido? Por que está fora de casa há tanto tempo? Será que se mudou para outra cidade para se esquecer do passado?

    Deborah sabe que qualquer especulação é mera subjetividade neste momento.

    Sem saber o que fazer ela caminha pensativa pelo corredor da escola e de repente se assusta ao escutar o sinal ensurdecedor avisando que é chegada a hora de voltar ao trabalho.
    Capítulo 3

    A briga

    Dois dias depois, manhã da sexta-feira.

    Após seguir Christofer até a sua casa, nos três dias seguintes, Deborah decide prestar mais atenção no comportamento do menino em sala de aula.

    No entanto ela nunca imaginaria que seria na manhã deste dia que Burt se levantaria da cadeira no meio da aula de história e começaria a agredir verbalmente Christofer, apontando-lhe o dedo e dizendo palavras horríveis. Muito menos ela imaginaria que a classe se voltaria contra ele e começaria a caçoar do garoto gritando todos juntos: Mulherzinha! Mulherzinha!

    É exatamente o que acontece em plena sala de aula na manhã de terça feira.

    ...Contunua

QUADROS, Joice

"O auto-conhecimento liberta, e Carlos nos estimula através de seus livros, cursos e palavras."

SOUZA, Anália

"Maravilhoso como pessoa, simples e humilde, o curso dele transforma. Todos deveriam fazer para ter uma nova visão da vida do amanhã."

CLARK, Willian

"Trabalhador da luz, vem escrevendo livros que atuam pra despertar cada vez mais pessoas."

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